quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Por aquela época, nada tínhamos para carregar nos bolsos.

O que havia eram umas esperanças modestas que andavam aqui e ali. 

Nada muito sólido. 

Eram como bolhas de sabão, as nossa esperanças.

Eram tímidas, as nossas esperanças.

Tão humildes que se escondiam ao primeiro ruído mais forte.

Mas nos acalentavam o peito nas tardes frias de inverno;

E quando andávamos pelas ruas melancólicas do bairro das pedras,

elas nos traziam à face um sorriso sem razão, aquelas esperanças singelas.

Há muito eu já não as trago comigo; 

elas se foram, humildes e silenciosas. 

Como eu queria tê-las novamente por perto.  

domingo, 7 de maio de 2023

Sonhei que era um devaneio




Sonhei contigo a noite que passou.

Estávamos às margens da estrada, próximos à velha ponte.

Tuas mãos desenhavam figuras imaginárias enquanto falavas,

e rias. 

Meus olhos, absortos nos teus, como que a perseguir pleiades,  torciam para que não te fosses.

Sem querer, entardeceu, e sem querer entardeci também.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Hibernação

Não quero lembrar do ano passado. Não gosto de pensar sobre ele, o ano passado. O ano passado poderia ser engolido por alguma espécie de dobra do espaço-tempo, e para mim não faria a menor diferença. Mas de qualquer modo, tanto faz; eu  já nem me importo mesmo com seja-lá-o-que-tenha-acontecido-no-ano-passado. Essa manhã, contudo, logo depois de acordar, fui até a janela e antes de abri-la me detive por alguns instantes. Algo pareceu-me novo. Um não-sei-o-quê de indistinguível, de sol, talvez, ou talvez por dentro, não sei. Num canto da calçada, ali na frente, um ramo verde se contorcia para vencer a fenda no concreto. "A cidade um dia já fora mais gentil", pensei, "quando ela ainda não sabia bem o que era ser uma cidade".  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

O Lugar dos Afetos Atemporais

Havia esse lugar...

E ainda que restassem poucas coisas ali, sob uma fina camada de pó, calátides, envoltas pelas horas de outras eras, jaziam, marcas profundas e indeléveis. 

Um fim de tarde tingido pelo sol de outono; a camiseta, que um dia já fora vermelha mas agora esmaecera em amarelo; páginas arrancadas de um velho hinário; um sussurro ou outro se esgueirando pelas frinchas; películas em celuloide com imagens de uma outra vida que um dia, talvez, fora a minha.

Tentei algumas vezes, sem êxito, dispensar esses inquilinos extemporâneos, incômodos por sua falta de serventia.

Acontece que o lugar em que habitam está fora da minha jurisdição. É o lugar dos afetos imperscrutáveis, deeps words.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

As Promessas e seu algoz

 "Promessas foram feitas para não serem cumpridas!". Lembro-me bem do impacto que a frase exerceu sobre mim quando a ouvi pela primeira e única vez, diretamente dos lábios do ancião sábio e peregrino. Lembro-me também de tentar, pronta e atabalhoadamente, com veemência sem contudo atacar a premissa básica, retrucar-lhe: "Mas as promessas são, a seu modo, lugares de felicidade". "Para quem? Para os ingênuos, os tolos, ou para os jogadores?".  Décadas depois, sentado à beira do crepúsculo, faço um balanço de todas as promessas que fiz e das que me fizeram e, lhano, concluo, mas ainda como se fosse uma aspiração juvenil: O algoz das promessas é o tempo, e não os olhos dela...

terça-feira, 22 de setembro de 2020

O menino e seu primeiro amor

O pátio apinhado de infantes vestidos de azul; a longa escadaria que dava acesso ao prédio principal e à sua arquitetura severa; risadas que pipocavam aqui e ali e que contrastavam com um sol preguiçoso que parecia um tanto indisposto naquela manhã de março. 

Ela estava ali, parada, um pouco à frente na fila ao lado da sua.

Ele aproximou-se o tanto quanto pode, e tentou articular uma frase. Mas as palavras demoraram uma eternidade para chegar-lhe aos lábios.

Blem, blem, blem.

A fila começou a mover-se, mas ele permaneceu estático. Seus olhos continuaram cativos, cravados nas mechas que delicadamente pendiam ao longo da sua nuca. 

- Tá dormindo?! Mexa-se, vamos!

Naquela manhã, pela primeira vez em sua vida ele descobriu, perplexo, que seu coração lhe era um desconhecido: socando seu peito como um louco, estava a ponto de escapar-lhe pela boca.

 

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

As graças de cada dia

Ela era sem graça, todos sabiam, e diziam. 

Ele também não tinha maiores atrativos.

Um dia se conheceram, e encheram de graça e de atrativos o mundo que inventaram. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

 

Recostada contra a parede do alpendre, uma réstia de sol assomava-lhe a pálpebra.

Os lêmures deixaram para trás um murmúrio, inaudível aos céticos e aos pobres.

A manhã se fora e a tarde... bem, a tarde ainda não dissera a que viera.

"E se um demiurgo louco esquecesse de inventar o tempo? Nesse universo improvável talvez os teus lábios ainda estivessem colados aos meus, para sempre".


 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Melancolia



Chovera intensamente a noite toda. Pela manhã, as ruas e praças eram quase um charco. Os prédios pareciam bunkers e dentro deles almas melancólicas se entrincheiravam à espera de que o sol lhes viesse redimir. O sol não veio, e continuou chovendo - agora uma chuva modorrenta - durante todo o dia. A certa altura, como se fosse uma orquestra de loucos, as buzinas lá fora prenunciaram que a noite estava ali, à espreita. Pensei, "...e se ela me ligasse? Se ela me ligasse o sol, certa e mansamente, retornaria". "Quanta bobagem", concluí. Meu gato, em sua sabedoria elementar, de gato, depois de dormitar ao longo da tarde, indiferente à qualquer devaneio sobre ligações telefônicas em uma eventual conexão com o retorno do sol, veio roçar-se, maliciosamente, em minhas pernas.  "Ahá, também estas melancólico, né?!" . De súbito, entretanto, lembrei-me! A bem da verdade, o que Theo sentia não era bem melancolia. É que estava na hora de reabastecer a sua tigela de ração. Bem, pelo menos alguém, naquele apartamento soturno, não perdera de todo a sanidade.      

domingo, 14 de junho de 2020

A Noite da Cidade Baixa



Hotel Cidade Baixa Porto Alegre | Hotel Intercity Cidade Baixa
Já vai longe aquela noite em que, Cidade Baixa adentro, saímos a explorar os bares e sua fauna notívaga.

Tu me falaste dos sonhos que ficaram pelo caminho, e eu te contei uma história estranha, de um fim de tarde em Montevidéu.

Guardo vividamente aquela canção que cantarolaste sentada na calçada enquanto tentavas perscrutar as estrelas,
"Todas las mañanas que viví, todas las calles donde me escondí..."

O luminoso faiscante do motel barato prometia a satisfação plena dos desejos ou a esperança de volta.

Quando o sol despachou todos os habitantes noturnos de volta aos seus recantos encobertos, recostaste tua cabeça em meu ombro, e adormecemos.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Erval Seco

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Madrugada serenada! O Erval se ressente pela chuva que não veio.
Uma noiva vestida de branco atravessa a rua dormente.
Abandonada no altar, suicidara-se. 
Da janela da mansarda eu a espio.

Enquanto todos os pássaros jazem em seus ninhos
eu asseguro às estrelas que jamais a abandonaria.

Engendro sonhos e adormeço. 

Um sopro repousa à margem da estrada, sob o caminho de leite.
Nunca mais tornarei a vê-la, e para sempre engendrarei sonhos!



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Ambição


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Seu problema era "não ter ambição alguma!", dizia-lhe com frequência Sabrina, sua esposa. Mas o que ela não sabia, e Luis, seu marido, considerava infrutuoso explicar-lhe, era que ele, ao contrário, possuía sim, uma ambição desmedida. Afinal, quantos, como ele, dispensariam tanto e tão precioso tempo e esforço para conseguir destilar todo o sentido e consequência daquilo que Marcela disse por ocasião da morte de Crisóstemo,  por exemplo?! Não. Sua mulher desconhecia o tamanho e a qualidade de sua ambição desmedida. Sorver em cada página os aromas que elas exalam; fechar os olhos e buscar farejar na brisa da noite o doce odor dos pilriteiros À Sombra das Raparigas em Flor; definitivamente isso era para ele uma ambição quase obsessiva. O curioso era que ela o queria justamente mais ambicioso. E por essa razão, às vezes, ele se sentia um pouco culpado por ocultar de Sabrina a natureza e a intensidade de sua ambição, pois tinha por evidente que não era dessa que ela tratava. Então, à noite, depois de retornar das atividades que ele tomava por medíocres, e enquanto Sabrina, ávida, assistia ao Show do Milhão, Luís entrava em sua pequena sala e ali ambicionava, com todas as forças de sua imaginação, prescrutar cada sensação subliminar de Sê um viajante numa noite de Inverno, e acabava por concluir sempre que ainda lhe careciam muito do tempo e dos recursos necessários à tal empreendimento.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Os loucos, seus solilóquios e os meninos



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Era um livrinho antigo, recheado por uma prosa igualmente antiguada e clichê; seus personagens, como que alheios às estruturas sociológicas pertinentes ou recomendáveis, mas que alguém identificará como pequeno burguesa, só falavam por uma espécie de solilóquio anacrônico, do tipo, "Eu espero! Quando a tarde se for por detrás do campanário, tu, finalmente, dirás que me ama. Mas se a lua vier sem que o digas, eu espero. E então esperarei pela aurora, e creio que ali, tu o dirás. Contudo, se esqueceres, por alguma razão qualquer, eu ainda estarei a espera". Como veem, uns loucos! Mas o menino os amava, e sonhava longe, com seu coração de menino e relances do primeiro amor às primeiras letras.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Das coisas que ela nunca saberá

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Enquanto a luz se estilhaçava contra a calçada fria da cidade lúrida,
um pequeno gesto, inerme e delicado, sustou, por um átimo
o tempo, o som, o sol e tudo que passava.

Os dedos delicados dela tocaram-lhe as faces hirsutas.
Seus lábios lhanos e lívidos sussurraram-lhe algo
e um sorriso que, como as pombas da Alfândega, abriu suas delicadas asas e se perdeu para sempre na tarde alheia.

Eles nunca saberão de mim
e a cidade nunca saberá...

Do lugar donde eu me encontrava imaginei um sussurro, inaudível:
"não te vás, fiques mais um pouco!"


quinta-feira, 30 de maio de 2019



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Eu quis que você ficasse
Te falei tantas coisas sem pensar
e pensei outras tantas, que não disse

Dia desses ouvi alguém falar o teu nome
e então me dei conta de que a primavera também se fora

A tua ausência impregnou as fendas do velho apartamento
e os rabiscos, ainda espalhados pelo chão, são os vestígios
de um tempo em que a felicidade rondava por ali

terça-feira, 14 de maio de 2019

A poça



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Claudiquei, mas me refiz a tempo de lembrar do teu riso
Os pensamentos dispersos, os contornos da rua, o teu nome rabiscado na calçada
Ruídos silenciosos e silêncios ruidosos pululavam aqui e ali

O temporal se fora
O céu estava limpo, agora
E então, finalmente, as estrelas!

A árvore caída sobre o meio fio dizia algo sobre o efêmero,
pela manhã  ninguém mais se lembrará de que ela, um dia, estivera 

A lembrança de uma canção noturna
O sinal perdido de wi-fi
O giz
A poça
E uma quimera

sábado, 19 de janeiro de 2019

No espelho da noite eu era Gregor Samsa

- Constantina!
Uma lâmpada vacilante lançava sua luz de um amarelo envelhecido contra o interior do pequeno barco sacolejante que cruzava o rio Madre de Dios no meio da noite. Bem mais distante estavam as luzes de Puerto Maldonado que bruxuleavam no lado oposto da margem. Sobrepondo-se ao breu, o esqueleto da ponte metálica que ligaria a duas pontas da Carretera Interoceânica  mais parecia a carcaça de um grande e ancestral animal há muito extinto.
- Conhece? Constantina?
O sujeito havia embarcado comigo em Rio Branco, no Acre, e depois de um dia inteiro de viagem em que quase não se ouvira dele uma palavra sequer, de repente, no meio daquela travessia insólita, contra o ruído do motor e meio que aos berros, resolvera puxar assunto!
- Conheço, de passagem. Fica próximo a Sarandi, não é?
- Isso. Pensei ter ouvido tu dizeres que era de Cruz Alta... presumi que podia conhecer... Constantina.
- Tu és de Constantina?
A minha pergunta banal pareceu tê-lo tomado de surpresa e, por alguma razão, o embaraçado. Ele desviou o seu olhar para algum lugar no escuro da noite; fez uma longa pausa, e quando eu já achava que havia se recolhido novamente ao seu silêncio mineral, irrompeu, com um sorriso meio retorcido:
- Não! Eu costumava ser de Passo Fundo.
- Ah, sim - respondi, não sem esconder uma certa irritação com a forma como a resposta fora dada. Ato contínuo, ele tornou aos olhos da noite, e eu às luzes bruxuleantes.
Na outra margem, veículos que pareciam uma espécie de tuc-tuc aguardavam para levar os passageiros que seguiriam adiante até o terminal rodoviário. Novamente aquele sujeito estranho, que pelo menos agora eu sabia tratar-se de um conterrâneo, gaúcho, como eu, se dirigiu a mim, pedindo para dividirmos o tuc-tuc, que mal comportava nós dois e as bagagens.
Atravessamos Puerto Maldonado e suas ruas excêntricas. Uma espécie de película lívida interpunha-se entre nós e a cidade, permitindo-nos apenas lobrigar seus contornos. Jovens malabaristas que mais pareciam ter saído de algum conto estranho de Edgar Allan Poe pululavam pelas esquinas principais. Durante o trajeto estreitamos as apresentações e trocamos algumas outras amenidades; eu me sentia um tanto desconfortável na companhia do sujeito, que agora eu sabia chamar-se Paulo. Mal chegamos no terminal rodoviário de Puerto Maldonado e já embarcamos; o ônibus que nos levaria a Cuzcu apenas aguardava a nossa chegada para dar partida. Sentamo-nos lado a lado, e a partir daí, pouco a pouco, como se tivesse esperado longamente por um momento como esse, Paulo começou a contar a sua história fantástica.
- No verão de 1977 eu tinha 17 anos, e ela 16. Na superfície, Constantina, com sua gente, era aquilo que as pequenas cidades e seus habitantes sempre aparentaram ser em tantos outros lugares dos fundões da América Latina: tediosa e melancólica. Aparentemente!, porque é justamente em lugares como esse que os dramas humanos se desenrolam, sem aspirar notoriedade, e por essa razão, mais profundos. Eu a chamava simplesmente de Moça; ela era a minha moça. Quanto a mim?, Gregor... Gregor Samsa era o meu nome, e por Gregor Samsa ela me tratava. O nosso mundo estava situado para além dos limites daquilo que se convencionou chamar de realidade objetiva.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O sonho do trapezista



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Tudo já estava detalhado em seu plano de voo
O acrobata olharia bem fundo nos olhos do abismo
O medo seria apenas e tão somente um espectador estupefato
Suas narinas aspirariam os fragmentos da última  estrela
E assim,  pleno de universo solitário de si e na solidão da urbe adormecida 
Ele se lançaria... 
As mãos trêmulas mas resolutas tateariam frenéticas a escuridão
E no derradeiro átimo do iminente e previsível desfecho ele ainda conseguiria um vislumbre da primavera que se fora e da doçura indefinível daquele olhar que ela lhe dera   



sábado, 10 de março de 2018

Notícias improváveis de um velho jornal do interior




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Ventos fortes acompanhados de chuvas torrenciais se abateram ontem sobre a pequena cidade de Velha Esperança, no interior do país. O fenômeno da natureza obrigou o casal de namorados,  Artur e Beatriz, a se amar intensamente, por todo o dia e noite, isolados do resto da humanidade. Só um velho gato, de nome Theo, lhes fez companhia, e em suas pupilas registrou o episódio, para o caso de ainda existir alguém no universo que se interesse por crônicas prosaicas.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O horizonte de eventos e a singularidade

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- Olá!
- Oi!?
- Você mora aqui? Eu preciso de uma informação.
- Não. Na verdade eu estou de passagem. Vim visitar um amigo que mora na cidade. 
- Ah! 
- Mas talvez eu possa te ajudar de algum modo...
- Bem, eu preciso chegar no... vamos ver... na Cidade Baixa.
- Ah, é fácil. Se tu não quiseres gastar muito com táxi podes ir de lotação. Posso te levar até o ponto, não fica longe.
- Obrigada. Mas não vou atrapalhar você?
- Não, fica tranquila. Opa! Venhas por aqui. A rodoviária fica um caos em véspera de feriadões. Todo mundo querendo sair da cidade. Ir para o litoral.
- Pois é! E nós no sentido contrário, chegando, enquanto quase todo mundo está partindo, rs.
- É mesmo. Mas sabe? Essa ideia de andar na contramão... às vezes é bem interessante, e não me incomoda. Ao contrário... rs
- rs. Eu também gosto dessa perspectiva. A contramão. Parece um fluxo que contraria o tempo e o lugar. De certo modo estamos indo para onde os retirantes deveriam, mas não vão estar, entende? Um lugar ao qual as pessoas recusaram o tempo.
- Hmmm! Há alguma coisa de teoria da relatividade aí, não há não? rs.
- ah, ah, ah, ah, ah. É, acho que tem um pouco sim.
- Bem, tudo o que eu consigo acessar sobre o tema é o que o Sabato disse no Uno y el Universo, e olha lá.     
- Não brinca? Eu adoro o Sabato. 
- Pois é. Tem a parte em que ele fala do eterno retorno, como se fosse uma paisagem permanente, um modo da repetição se realizar. E isso seria uma espécie de eternidade,  o que, convenhamos, se assemelha a uma maldição, naquela concepção do demônio de Nietzsche: "essa vida terá de vivê-la inúmeras vezes." 
- Claro! Por isso eu acho que a ideia da contramão subverte de algum modo um universo sem entropia, tedioso. Mas tem um preço. O risco de um acidente é sempre eminente.  
- Chegamos! Vou esperar até que a tua lotação chegue. 
- Que bom... Você... disse que está de passagem?!
- Ah, sim. Vou ficar umas duas semanas aqui em Poa. E tu?
- Eu? Bem, eu acho que vou ficar até o fim das férias. Estou dando um tempo.
- Que interessante! De certo modo eu também, estou dando um tempo.
- Que curioso. Nós dois nos encontramos aqui, no limiar do tempo, rs.
- rs, Verdade. Olha, a tua lotação chegou... 
-  ...
- Então... até...
- Mas é isso?! As coisas terminam aqui? Assim?
- Não... vou te acompanhar até a Cidade Baixa...
- Que alívio! Pensei que você me deixaria partir, assim!