sexta-feira, 22 de abril de 2016

Quando o amor acontece

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Nenhuma rede de segurança
ou placas, sinalizando o caminho.
A bússola hesita em face do polo magnético. 

O horizonte se esvai em horizontes
e a retina, descolada pelo deslumbramento,
apenas revolve, sem saber ao certo quando ou como.

O imponderável nunca foi tão imponderável,
e a entropia do mundo que se fragmenta não é a desordem
mas sim o amor acontecendo quando, aparentemente, não devia .




Quando as pontes se partem


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Uma ponte caída interrompe a caminhada.
O sol já vai se pôr,
e há que se acender a fogueira.
No céu, duas ou três estrelas observam, silentes,
a solidão que, tal como um predador faminto, espreita.
Um sorriso tímido, mas ainda assim um sorriso,
se desvencilha de algum lugar da lembrança,
e sem qualquer motivo aparente
pousa na superfície dos lábios.
O dia se despede afinal.
A noite vai ser longa, fria... e bela.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ofélia, a filha do Conselheiro








Um  marquês lhe sorriu da janela, daquela, pintada de amarelo
E amarelo era sua cor preferida, e as tardes, pintadas de sóis

Havia esse mundo só dela, e nele, tudo lhe era singelo
Singela lhe era a vida, pois ainda não lhe conheciam os anzóis

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

De quem já foi Dom Quixote




Por onde andaste, Dulcineia de Tomboso?
Saibas que em todas as primaveras que se seguiram eu vim aqui
e sentado naquele mesmo banco esperei por ti

A cidade, as flores da cidade e todas as janelas, abertas, aguardavam por tua volta, Dulcineia
E Rocinante, coitado, há muito tempo se foi, partiu a tua procura e dele nunca ninguém mais soube

Quem me dera, Dulcineia, quem me dera voltar a roda do tempo
E todos os versos do mundo
Os sussurros dos amantes varando a noite eterna do cosmos
E você, só você, Dulcineia, "...Que así envidiada fuera, y no envidiara
                                              Y fuera alegre el tiempo que fué triste..."

Por onde andaste então, Dulcineia de Tomboso...?

inter esse




Quando disseste, um dia, que havias me decifrado

Percebi, desiludido, que tudo estava finito

Pois se o infinito se fora, com ele todo o mistério

E aquele lance no estômago, que inquieta os enamorados



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Gosto dos perdedores



Aprecio os perdedores. Mas não qualquer tipo de perdedor, não. E sim uma espécime em particular dentre os perdedores.  O perdedor que aprecio é do tipo que não esconde as marcas das inúmeras derrotas, mas também não as ostenta: ele traz essas cicatrizes na face, nos punhos, pelo corpo, mas, sobretudo, na alma. Ele é aquele que, quando compelido, entra no campo de batalha, avalia seus contendores, os cumprimenta cordialmente olhando-os diretamente nos olhos, percebe sua inferioridade ante eles e, ainda assim, se lança!, mesmo antevendo a derrota. Finda a luta, arrasta-se até um canto qualquer, lambe suas feridas e, passado algum tempo, levanta-se! O perdedor que admiro não externa seus lamentos e nem os motivos pelos quais prefere silenciá-los. E quando lembrado sobre seus reveses, sorri, introspectivo, sem ressentimentos. E sim!, ele tem lá as suas vitórias, ás vezes. Não obstante, as lembranças das inúmeras derrotas o tornou suficientemente humilde para saber que elas, as vitórias, são circunstanciais e efêmeras. Talvez seja minha inclinação para o estoicismo, não sei. Talvez decorra da profunda impressão que me causou, ainda na adolescência, o que Hamlet disse a Horácio, “... pois sempre foste diante das dores, como quem não sofre, um homem que recebe como idênticos golpes ou recompensas da fortuna, e igualmente os agradece.” É possível que um perdedor assim seja apenas minha idealização, uma alegoria romântica. Mas num mundo com tantos vencedores gosto de imaginar que exista um perdedor assim, e que ele ainda esteja lá, perdido no campo de batalha, se recompondo após mais uma derrota, enquanto os vencedores se retiram, sob os holofotes e os aplausos da plateia.

Talvez

Talvez haja mesmo essa centelha. Mas acho que, caso ela exista de fato, só poderia fazer algum sentido se, e somente se, em algum momento, além de nos aquecer por dentro, também pudesse serenar a alma de quem recostou a cabeça em nosso peito.