Ontem, quando passei em frente a tua antiga casa e a vi recém pintada de amarelo, eu soube: tu estavas de volta! Todos aqueles anos e eu ansiei por te mostrar umas coisas que mantive guardadas naquele velho baú cor de ferrugem. Nonsense, alguém já me disse uma vez, mas lembrei daqueles dias, daquela música, daquele beijo dançando delicadamente em tua boca. Ninguém mais, além de nós, soube do velho muro e do ipê que o emoldurava. E se eu te disser que os nossos nomes continuam gravados naquela calçada, "Morning girl"?!
Apenas por um dia é a natureza daquilo que é efêmero, transitório, impermanente, mas nem por isso menos belo, singular ou desprovido de importância. Sempre haverá uma perspectiva, um fragmento encoberto, que faz com que algo qualquer envolva alguma qualidade incomum, ainda que ambígua, mas por isso mesmo, rara.
domingo, 22 de outubro de 2017
Morning girl
Ontem, quando passei em frente a tua antiga casa e a vi recém pintada de amarelo, eu soube: tu estavas de volta! Todos aqueles anos e eu ansiei por te mostrar umas coisas que mantive guardadas naquele velho baú cor de ferrugem. Nonsense, alguém já me disse uma vez, mas lembrei daqueles dias, daquela música, daquele beijo dançando delicadamente em tua boca. Ninguém mais, além de nós, soube do velho muro e do ipê que o emoldurava. E se eu te disser que os nossos nomes continuam gravados naquela calçada, "Morning girl"?!
sexta-feira, 21 de julho de 2017
Desenhos na superfície da água
Finalmente, depois de tantos anos, Adélia achou que retornava.
Cedo, porém, descobriu que não.
Aquele lugar que um dia fora seu, já não estava.
domingo, 8 de janeiro de 2017
O sumidouro da Voluntários - parte I
De início, algumas advertências, que considero oportunas àqueles que irão dispender, talvez por mera generosidade, o seu valioso tempo na leitura dessa narrativa. E faço essas advertências para não ser tomado pelo Velho Marinheiro, de Coleridge, que ao deter um ouvinte e iniciar a sua ladainha, "Houve um navio...", obtém como resposta, "Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!".
Então, além de evitar ser tomado por inoportuno, com essas advertências, de certo modo, eu fico isento de ser tomado também por uma fraude literária, e pior, somente ao final da leitura. Assim, com cuidados que ora tomo, o leitor já poderá, espero, tirar suas conclusões de plano.
Quanto as advertências, a primeira é a de que a história que contarei aqui teve lugar nos anos que se seguiram ao fim da ditadura. E porquê isso é de alguma forma relevante? Bem, eu acho que ainda que a narrativa não tenha muito a ver, pelo menos diretamente, com a Repressão, o regime de força que durou vinte anos acabou por impregnar tudo, de um ou outro modo.
É estranho... depois de tanto tempo! A mim, que passei infância e adolescência naquele período, me parece hoje que aqueles anos se distinguiram, entre tantas coisas, pelo modo como os discursos eram regurgitados. Alguém já disse algo sobre a estética fragmentária, descontínua, oblíqua que opunha-se às falas oficiais, e que em seus estertores já não disfarçavam suas contradições, a sua violência inerente, mas que também queriam aparentar outra coisa.
Somente com o transcorrer dos anos, alguns de nós, os que achavam que haviam perdido algo durante aquele período, foram capazes de atar alguns fios, algumas daquelas pontas soltas. Meu pai disse certa feita, que a ditadura era o lugar dos castrados. A frase me seguiu tempo afora, talvez por não dizer quase nada, por ser tão somente uma frase de efeito .
A segunda advertência é a de que eu sou um advogado!, e essa condição, entendam, afeta a minha forma de narrar, que já adianto, é, em muitas ocasiões, empolada. E porquê é empolada? Eu explico. O direito, para quem não sabe, é assim como uma enxada, e aqui não vai nenhuma intenção em ofender os agricultores e nem o seu honrado labor. Mas o direito se assemelha a um instrumento na medida em que, assim com a enxada, ele se presta a uma finalidade.
Mas que finalidade seria essa, afinal, a do direito? A busca do bem comum? A da pacificação social? A da justiça enquanto equidade? Bem, a isso, para falar honestamente, depois de trinta anos de profissão, eu não saberia responde exatamente. Mas uma coisa eu sei com certeza, e lhes direi agora. A linguagem, o juridiquês, está para o direito assim como a batuta está para o maestro: faz parte do espetáculo! E ainda que se tente, não dá para se livrar facilmente do juridiquês, ele é um vício para o qual a ciência ainda não encontrou a cura. Mas lhes prometo tentar.
E a terceira, e derradeira advertência, tem a ver com as razões que me impeliram a essa narrativa.
Então, além de evitar ser tomado por inoportuno, com essas advertências, de certo modo, eu fico isento de ser tomado também por uma fraude literária, e pior, somente ao final da leitura. Assim, com cuidados que ora tomo, o leitor já poderá, espero, tirar suas conclusões de plano.
Quanto as advertências, a primeira é a de que a história que contarei aqui teve lugar nos anos que se seguiram ao fim da ditadura. E porquê isso é de alguma forma relevante? Bem, eu acho que ainda que a narrativa não tenha muito a ver, pelo menos diretamente, com a Repressão, o regime de força que durou vinte anos acabou por impregnar tudo, de um ou outro modo.
É estranho... depois de tanto tempo! A mim, que passei infância e adolescência naquele período, me parece hoje que aqueles anos se distinguiram, entre tantas coisas, pelo modo como os discursos eram regurgitados. Alguém já disse algo sobre a estética fragmentária, descontínua, oblíqua que opunha-se às falas oficiais, e que em seus estertores já não disfarçavam suas contradições, a sua violência inerente, mas que também queriam aparentar outra coisa.
Somente com o transcorrer dos anos, alguns de nós, os que achavam que haviam perdido algo durante aquele período, foram capazes de atar alguns fios, algumas daquelas pontas soltas. Meu pai disse certa feita, que a ditadura era o lugar dos castrados. A frase me seguiu tempo afora, talvez por não dizer quase nada, por ser tão somente uma frase de efeito .
A segunda advertência é a de que eu sou um advogado!, e essa condição, entendam, afeta a minha forma de narrar, que já adianto, é, em muitas ocasiões, empolada. E porquê é empolada? Eu explico. O direito, para quem não sabe, é assim como uma enxada, e aqui não vai nenhuma intenção em ofender os agricultores e nem o seu honrado labor. Mas o direito se assemelha a um instrumento na medida em que, assim com a enxada, ele se presta a uma finalidade.
Mas que finalidade seria essa, afinal, a do direito? A busca do bem comum? A da pacificação social? A da justiça enquanto equidade? Bem, a isso, para falar honestamente, depois de trinta anos de profissão, eu não saberia responde exatamente. Mas uma coisa eu sei com certeza, e lhes direi agora. A linguagem, o juridiquês, está para o direito assim como a batuta está para o maestro: faz parte do espetáculo! E ainda que se tente, não dá para se livrar facilmente do juridiquês, ele é um vício para o qual a ciência ainda não encontrou a cura. Mas lhes prometo tentar.
E a terceira, e derradeira advertência, tem a ver com as razões que me impeliram a essa narrativa.
E que razões seriam essas, sinceramente, eu não tenho muita certeza! Pelo seu valor literário ou histórico vocês já podem, a essa altura, suspeitar que não, posto que, como já sabem agora, não sou escritor e tampouco historiador. E ainda que me considere um leitor atento e, vai, porque não?, com uma certa erudição, como escritor sou bem medíocre, reconheço.
Falta a mim o estilo, a originalidade, a estética, a verve etc. E porque afirmo isso como tanta convicção? Ora, justamente porque sou um bom leitor! É penoso para qualquer um que tenha algum senso crítico escrever algo com pretensões literárias depois de já ter lido Cervantes, Dostoiévski, Tolstoi, Balzac, Shakespeare, Proust, Machado de Assis, Raduan Nassar e, com a devida vênia, Érico Veríssimo - e para evitar controvérsias eu já aviso, esse rol não se trata de numerus clausus.
Falta a mim o estilo, a originalidade, a estética, a verve etc. E porque afirmo isso como tanta convicção? Ora, justamente porque sou um bom leitor! É penoso para qualquer um que tenha algum senso crítico escrever algo com pretensões literárias depois de já ter lido Cervantes, Dostoiévski, Tolstoi, Balzac, Shakespeare, Proust, Machado de Assis, Raduan Nassar e, com a devida vênia, Érico Veríssimo - e para evitar controvérsias eu já aviso, esse rol não se trata de numerus clausus.
Mas então, afinal de contas, porque dispender tempo com fatos obscuros, depois de tanto tempo? Alguém poderia controverter, não sem razão, que os motivos que levam alguém a escrever sobre episódios de cunho autobiográfico podem muito bem ser explicados pela vaidade de um ego grande, que não consegue se conter dentro dos seus limites. Um ego assim inflacionado de si mesmo poderia levar o tal sujeito a imaginar que o mundo não poderia passar sem saber sobre a sua história única, maravilhosa, heroica.
Para esses que assim pensam eu afirmo, de antemão, que esse não é o meu caso. Não há traço nenhum de heroísmo naquilo que estou prestes a narrar, e também não há nada de maravilhoso ali. Além de que, em se tratando de mim, sou absolutamente prosaico, vivendo uma existência absolutamente trivial, como seria de se esperar de um advogado da área trabalhista, que eventualmente cuida de questões de família, mas jamais, nunca mesmo, da área penal, onde poderia, enfim, existir algum tipo de adrenalina.
Para esses que assim pensam eu afirmo, de antemão, que esse não é o meu caso. Não há traço nenhum de heroísmo naquilo que estou prestes a narrar, e também não há nada de maravilhoso ali. Além de que, em se tratando de mim, sou absolutamente prosaico, vivendo uma existência absolutamente trivial, como seria de se esperar de um advogado da área trabalhista, que eventualmente cuida de questões de família, mas jamais, nunca mesmo, da área penal, onde poderia, enfim, existir algum tipo de adrenalina.
A pergunta, não obstante, permanece: Afinal de contas, porque revelar fatos de natureza pessoal, depois de tanto tempo? Talvez, e aqui um materialista convicto roga por uma dose generosa de indulgência, talvez porque não consigamos nos desvencilhar completamente daquela ideia de uma saudade etérea, de que Plantão nos falou. Ou porque, ainda que não o reconheçamos conscientemente ou talvez justamente ao contrário, por reconhecermos a dura verdade, a da nossa posição no cosmos, de absoluta irrelevância, talvez por isso tenhamos essas aspirações insensatas à imortalidade, continuando na esteira de Platão.
E nessa última perspectiva eu acho que, no final das contas, todos guardamos essa aspiração velada e inverossímil de que seria de algum modo injusto se algo de nós, de singular e belo não continuasse para sempre, o beijo fugaz mas por alguma razão inesquecível, aquele por-de-sol nas pedras junto à praia, a troca de olhares que prometia a eternidade. Que isso permanecesse, pelo menos enquanto o universo continuasse a se expandir.
E nessa última perspectiva eu acho que, no final das contas, todos guardamos essa aspiração velada e inverossímil de que seria de algum modo injusto se algo de nós, de singular e belo não continuasse para sempre, o beijo fugaz mas por alguma razão inesquecível, aquele por-de-sol nas pedras junto à praia, a troca de olhares que prometia a eternidade. Que isso permanecesse, pelo menos enquanto o universo continuasse a se expandir.
De qualquer sorte, seja pelo motivo que for, nos últimos meses, com uma frequência um tanto inconveniente, eu me pego e revivescer aquele período turbulento de minha vida e por conta do qual eu levei tempo considerável para pacificar a mim mesmo.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
O sumidouro da Voluntários - parte IV
Nos dias que se seguiram àquele primeiro encontro eu me pegava pensando em Natália com uma frequência irritante. Sim, irritante, porque parecia que eu não tinha controle sobre meus pensamentos. Minha cabeça revivificava cada detalhe, ainda que bobo, daquela noite.
O rosto levemente ovalado e expressivo de Natália, contra uma tez clara, quase diáfana, e que terminava em um queixo delicado mas incisivo, que parecia espetar o ar à sua frente, e com uma covinha quase imperceptível. Os seus olhos, que me faziam lembrar Homero, ao descrever os aqueus, por oblongos, eram de um verde acinzentado, herméticos, misteriosos, e nos quais se podiam antever dias azuis e ensolarados seguidos por tempestades avassaladoras. Mas era a boca, com seus arcos delicados e harmoniosos, que sintetizava bem o conjunto. Ah, com eu quis beijar aquela boca, confesso agora, desde o primeiro momento.
E enquanto eu repassava tudo, me surpreendi ao lembrar daquela impressão inicial, a de uma beleza trivial! Ainda que eu estivesse mais ou menos ciente de que o meu senso crítico e de moderação já não me acudiam àquela altura, tudo o que eu podia dizer então era que a beleza da Natália podia ser muitas coisas, menos trivial.
Uma outra coisa, até então totalmente estranha para mim, aconteceu naqueles dias; foi um sentimento que surgiu de modo quase imperceptível e foi se exasperando.
O rosto levemente ovalado e expressivo de Natália, contra uma tez clara, quase diáfana, e que terminava em um queixo delicado mas incisivo, que parecia espetar o ar à sua frente, e com uma covinha quase imperceptível. Os seus olhos, que me faziam lembrar Homero, ao descrever os aqueus, por oblongos, eram de um verde acinzentado, herméticos, misteriosos, e nos quais se podiam antever dias azuis e ensolarados seguidos por tempestades avassaladoras. Mas era a boca, com seus arcos delicados e harmoniosos, que sintetizava bem o conjunto. Ah, com eu quis beijar aquela boca, confesso agora, desde o primeiro momento.
E enquanto eu repassava tudo, me surpreendi ao lembrar daquela impressão inicial, a de uma beleza trivial! Ainda que eu estivesse mais ou menos ciente de que o meu senso crítico e de moderação já não me acudiam àquela altura, tudo o que eu podia dizer então era que a beleza da Natália podia ser muitas coisas, menos trivial.
Uma outra coisa, até então totalmente estranha para mim, aconteceu naqueles dias; foi um sentimento que surgiu de modo quase imperceptível e foi se exasperando.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
O sumidouro da Voluntários - III
Quando bati os olhos no rádio-relógio já passava das onze. Eu não estava com muito ânimo para levantar e a cervejada da noite anterior ainda fazia sentir os seus efeitos. Artur me convidara para almoçar em sua casa, mas eu já havia me decidido a ficar em meu apartamento mesmo. Tinha que estudar. Depois de mais um cochilo breve, criei coragem e levantei. Fui até a cozinha e preparei o chimarrão.
Abri a janela da sala, que dava para a Voluntários. O dia estava esplêndido, ensolarado e o azul do céu, por conta da chuva que caíra na madrugada, parecia ter sido lavado. No três-em-um botei para tocar o último disco do Vitor Ramil, Tango, e então comecei a olhar a matéria.
Abri a janela da sala, que dava para a Voluntários. O dia estava esplêndido, ensolarado e o azul do céu, por conta da chuva que caíra na madrugada, parecia ter sido lavado. No três-em-um botei para tocar o último disco do Vitor Ramil, Tango, e então comecei a olhar a matéria.
Havia uma semana que o Marquinhos tinha retornado a Carazinho. Sua mãe, dona Jacira, estava seriamente doente, de modo que eu estava só, no apartamento. Mas a solidão não me incomodava em absoluto. Desde que viera para Porto Alegre, há cinco anos, eu tinha me acostumado a uma certa dose de solidão. E depois da morte de meu pai, há um ano e meio, as minhas idas a Cruz Alta estavam ficando cada vez mais escassas. O trabalho, a faculdade, mas, sobretudo nos últimos meses, o fato de minha mãe estar de caso com um sujeito, com tão pouco tempo de viuvez, o que me deixara transtornado, contribuíram bastante para isso.
Em nossa última conversa eu tinha sido bastante duro com minha mãe; falei coisas das quais eu viria a me envergonhar mais tarde. Mas o fato é que havia passado pouco mais de um ano desde a morte de meu pai e então, em uma de minhas idas para casa, minha irmã mais velha, Marina, me confidenciou o que seria um suposto flerte de nossa mãe. Ela disse que só estava me contando para que eu não fosse tomado de surpresa. Naquela oportunidade, desconcertado e enfurecido, não consegui encarar minha mãe e cuidei de retornar prontamente para Porto Alegre. Torci para que, se aquilo fosse mesmo verdade, em minha próxima ida a história já tivesse terminado.
No curso dos dois meses que antecederam minha última ida a Cruz Alta naquele ano, Marina ia me pondo ao par da evolução do relacionamento de minha mãe com o tal sujeito. Segundo Marina, minha mãe o havia apresentado ao seu marido, Pedro, meu cunhado. Depois ela convidou a ambos, Pedro e Marina, além de suas filhas, minhas sobrinhas, Beatrice e Berenice, para jantarem em nossa casa, ocasião em que, segundo Marina, o relacionamento foi selado. Nossa irmã mais nova, Adele, não se encontrava na ocasião, mas, segundo Marina, já estava ao par de tudo.
A essa altura achei que era hora de por um ponto final naquele disparate. Então, quando chegou outubro, fui a Cruz Alta disposto a chamar minha mãe à razão. E assim, na conversa que se seguiu, muitas coisas foram ditas. Algumas que não deveriam, e outras que até deveriam, mas não naquela ocasião, e nem da forma como foram ditas.
Hoje, depois de tanto tempo, olhando para trás, fico pensando no quão estranhas são essas narrativas quando as olhamos com distanciamento. A impressão que fica é a de que passamos boa parte da vida em um mundo só nosso, ideando coisas e formas ideais à revelia dos outros, e depois perdemos outra parte importante da vida tentando espremer os ideais, os outros e o universo nesses moldes, impondo assim uma dose extra de sofrimento a nós mesmos e àqueles a quem supostamente amamos, sofrimento além daquele que a vida já nos impõe naturalmente.
À noite, depois de comer alguma coisa, decidi deixar um pouco de lado as questões sobre a ordem da vocação hereditária e aceitar o convite da Mel. Desci até o apartamento delas, como alias, costumava fazer aos domingos, invariavelmente para um carteado regado a algum tipo de destilado. E, justamente por ser um domingo, lá estavam todas elas, em torno da mesa da sala, jogando buraco: Mel, Andréa, Jociane, Nora, a gerente da casa, por assim dizer, e protagonizando a cena, ela, Natália.
Andréa foi até a porta, beijou-me a boca furtivamente enquanto todas iam me apresentando simultaneamente. "Olha, Natália, esse é o Paulo... é o nosso vizinho aqui de cima... ele trabalha na Mesbla, está se formando em direito... e a parte mais deliciosa, o Paulo é poeta e por isso goza de... hmmm... certas regalias aqui conosco, entendeu?!" A última frase foi dita entre risos e gritinhos ruidosos. "E mais uma coisa importante sobre o Paulo, Natália, e que tu precisas saber: o Paulo é uma espécie de príncipe das meninas ali da Voluntários."
"Como assim, uma espécie de príncipe?!", retorquiu Natália. "Ah, um dia a gente te conta essa história bem direitinho, é longa", completou Nora. "Não, não! Não é nada disso. Não acredites. Elas estão inventando umas coisas e exagerando outras!", disse eu, constrangido. "Hmmm... interessante! Fiquei curiosa para saber onde fica o exagero e aonde vai a invenção!", disse Natália, com um sorriso breve e luminoso, que me atingiram de um modo estranho, sem que eu estivesse preparado para o impacto.
E foi assim que, em uma noite de dezembro daquele longínquo ano de 1986, em meio as risadas estridentes e conversas levianas que se atravessavam e se sobrepunham, tudo regado a uma batida de amendoim de péssima qualidade, conheci Natália.
"Conhece o Bukowski, poeta?!", perguntou Natália a certa altura, e fazendo com os dedos sinal de entre aspas ao falar a palavra poeta. "Bem, dele eu li Cartas na Rua", respondi. "O que?! Crônicas de um amor louco, Misto quente, Fabulário geral do delírio cotidiano... nada?!", provocou ela. "Não, não.", respondi um pouco embaraçado.
Lembro de ter pensado em como seria possível que estivesse ali alguém que, entre outras coisas, lera Bukowski, por exemplo. O mundo era mesmo um lugar estranho, ou, pelo menos, aquele mundo onde eu me encontrava.
Em nossa última conversa eu tinha sido bastante duro com minha mãe; falei coisas das quais eu viria a me envergonhar mais tarde. Mas o fato é que havia passado pouco mais de um ano desde a morte de meu pai e então, em uma de minhas idas para casa, minha irmã mais velha, Marina, me confidenciou o que seria um suposto flerte de nossa mãe. Ela disse que só estava me contando para que eu não fosse tomado de surpresa. Naquela oportunidade, desconcertado e enfurecido, não consegui encarar minha mãe e cuidei de retornar prontamente para Porto Alegre. Torci para que, se aquilo fosse mesmo verdade, em minha próxima ida a história já tivesse terminado.
No curso dos dois meses que antecederam minha última ida a Cruz Alta naquele ano, Marina ia me pondo ao par da evolução do relacionamento de minha mãe com o tal sujeito. Segundo Marina, minha mãe o havia apresentado ao seu marido, Pedro, meu cunhado. Depois ela convidou a ambos, Pedro e Marina, além de suas filhas, minhas sobrinhas, Beatrice e Berenice, para jantarem em nossa casa, ocasião em que, segundo Marina, o relacionamento foi selado. Nossa irmã mais nova, Adele, não se encontrava na ocasião, mas, segundo Marina, já estava ao par de tudo.
A essa altura achei que era hora de por um ponto final naquele disparate. Então, quando chegou outubro, fui a Cruz Alta disposto a chamar minha mãe à razão. E assim, na conversa que se seguiu, muitas coisas foram ditas. Algumas que não deveriam, e outras que até deveriam, mas não naquela ocasião, e nem da forma como foram ditas.
Hoje, depois de tanto tempo, olhando para trás, fico pensando no quão estranhas são essas narrativas quando as olhamos com distanciamento. A impressão que fica é a de que passamos boa parte da vida em um mundo só nosso, ideando coisas e formas ideais à revelia dos outros, e depois perdemos outra parte importante da vida tentando espremer os ideais, os outros e o universo nesses moldes, impondo assim uma dose extra de sofrimento a nós mesmos e àqueles a quem supostamente amamos, sofrimento além daquele que a vida já nos impõe naturalmente.
À noite, depois de comer alguma coisa, decidi deixar um pouco de lado as questões sobre a ordem da vocação hereditária e aceitar o convite da Mel. Desci até o apartamento delas, como alias, costumava fazer aos domingos, invariavelmente para um carteado regado a algum tipo de destilado. E, justamente por ser um domingo, lá estavam todas elas, em torno da mesa da sala, jogando buraco: Mel, Andréa, Jociane, Nora, a gerente da casa, por assim dizer, e protagonizando a cena, ela, Natália.
Andréa foi até a porta, beijou-me a boca furtivamente enquanto todas iam me apresentando simultaneamente. "Olha, Natália, esse é o Paulo... é o nosso vizinho aqui de cima... ele trabalha na Mesbla, está se formando em direito... e a parte mais deliciosa, o Paulo é poeta e por isso goza de... hmmm... certas regalias aqui conosco, entendeu?!" A última frase foi dita entre risos e gritinhos ruidosos. "E mais uma coisa importante sobre o Paulo, Natália, e que tu precisas saber: o Paulo é uma espécie de príncipe das meninas ali da Voluntários."
"Como assim, uma espécie de príncipe?!", retorquiu Natália. "Ah, um dia a gente te conta essa história bem direitinho, é longa", completou Nora. "Não, não! Não é nada disso. Não acredites. Elas estão inventando umas coisas e exagerando outras!", disse eu, constrangido. "Hmmm... interessante! Fiquei curiosa para saber onde fica o exagero e aonde vai a invenção!", disse Natália, com um sorriso breve e luminoso, que me atingiram de um modo estranho, sem que eu estivesse preparado para o impacto.
E foi assim que, em uma noite de dezembro daquele longínquo ano de 1986, em meio as risadas estridentes e conversas levianas que se atravessavam e se sobrepunham, tudo regado a uma batida de amendoim de péssima qualidade, conheci Natália.
"Conhece o Bukowski, poeta?!", perguntou Natália a certa altura, e fazendo com os dedos sinal de entre aspas ao falar a palavra poeta. "Bem, dele eu li Cartas na Rua", respondi. "O que?! Crônicas de um amor louco, Misto quente, Fabulário geral do delírio cotidiano... nada?!", provocou ela. "Não, não.", respondi um pouco embaraçado.
Lembro de ter pensado em como seria possível que estivesse ali alguém que, entre outras coisas, lera Bukowski, por exemplo. O mundo era mesmo um lugar estranho, ou, pelo menos, aquele mundo onde eu me encontrava.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
O sumidouro da Voluntários - parte II
Natália! Era esse o seu nome. Ou, pelo menos, o nome que ela escolhera quando decidiu mudar-se para o prediozinho de número 87, na Rua Senhor dos Passos. Foi Melissa quem primeiro me contou de sua chegada, quando nos esbarramos nas escadarias naquela manhã de sábado. "Ela é linda... tu vais gostar dela...é inteligente...Aliás, todos vão gostar dela... Somos amigas desde a adolescência...". A Mel era assim mesmo, era da sua índole exagerar um pouco as coisas, então... Mel arrematou com o convite de sempre: "...dá uma passadinha lá, amanhã à noite!?."
Aquele início de dezembro estava sendo infernal. Na faculdade a disciplina de direito civil estava me matando. Eu simplesmente não entendia o que o cara, um professor metido a estrela, queria. No trabalho as coisas não iam melhor. Eu já havia me decidido a participar da greve geral contra o Plano Cruzado, anunciada para a semana seguinte, e o meu empenho em tentar convencer os colegas a participarem também, acabou por reverberar nos andares de acima do sóbrio prédio de tijolos à vista da esquina da Voluntários da Pátria com a Cel. Vicente, sede da Mesbla em Porto Alegre.
Um pouco antes do fim do expediente, Jorge, o gerente boa praça, veio falar comigo. "Vamos tomar umas? Só umas! rs. Hoje eu tenho que chegar mais cedo em casa." Um pouco depois lá estávamos nós, eu, o Jorge e o Artur, a caminho de um barzinho que ficava em frente ao Viaduto da Conceição, e que era de um tio da mulher do Jorge, o seu Jairo, um policial civil aposentado. Era a hora do pico. A fuligem que saía dos escapamentos dos ônibus que transitavam, modorrentos, pela Voluntários, deixava as partículas do diesel suspensas na superfície fina do entardecer.
Artur trabalhava na contabilidade e além de termos começado mais ou menso na mesma época na empresa, estudávamos juntos na Unisinos, eu cursava direito e ele engenharia mecânica. Talvez por uma certa semelhança de temperamentos acabamos por nos tornar grandes amigos, e de tanto frequentar a sua casa, virei meio que um membro da sua família, e depois de um breve namoro com a irmã dele, Simone, acabei também amigo e interlocutor dela, que cursava Medicina na PUC.
Artur trabalhava na contabilidade e além de termos começado mais ou menso na mesma época na empresa, estudávamos juntos na Unisinos, eu cursava direito e ele engenharia mecânica. Talvez por uma certa semelhança de temperamentos acabamos por nos tornar grandes amigos, e de tanto frequentar a sua casa, virei meio que um membro da sua família, e depois de um breve namoro com a irmã dele, Simone, acabei também amigo e interlocutor dela, que cursava Medicina na PUC.
Além de grão de bico em conserva, que comprava no Mercado Municipal e trazia para essas rodadas no bar do seu Jairo, segundo ele "para dar uma forrada", Jorge gostava também de longas conversas,tautologias e cerveja. Naquele início de noite, depois de enxugar algumas geladas e de tecer comentários efusivos sobre a região glútea de uma nova vendedora da seção de discos, Jorge entabulou uma conversa mais séria. "Paulo, eles estão de olho! Quem participar da greve vai ficar com o pescoço na degola. Eu te indiquei ao programa de gerente trainee e se tu participares dessa paralisação, pode esquecer...".
Eu gostava mesmo do Jorge. Naqueles meus quase três anos de Mesbla foram algumas madrugadas entornando juntos umas geladas, fosse inverno ou verão. "Obrigado, Jorge, eu te agradeço mesmo! Mas sabe o que é?...". Jorge me interrompeu, tão logo comecei a me justificar. "Paulo, não me fales nada agora, ainda não! Eu gosto de ti, e tu sabes disso, e por isso, só por isso... vou te falar umas coisas e tu vais me ouvir, até o fim." Eu andava cansado mesmo, e não estava com a mínima vontade de entabular qualquer discussão, apenas beber. Então deixei que o Jorge falasse até se cansar, o que era um pouco difícil, o Jorge se cansar de falar.
"Sabe o que mais me agrada em ti...?" Fez uma pausa, e enquanto escolhia as palavras, deu um gole, acendeu mais um cigarro e ficou me encarando com os seus olhos esbugalhados. Balancei negativamente a cabeça, com um ar um tanto divertido. "Tu és um pouco parecido comigo, Paulo. Tu és honesto e ingênuo, como eu era! Honesto demais, essa é a verdade. Inteligente, sim. Mas honesto. Só que um honesto do tipo romântico, e ingênuo. Aliás, anota aí, todo o romântico é um ingênuo. E essa frase é minha, pode registrar". O Jorge adorava esses clichês, cuja a autoria ele sempre atribuía a si mesmo.
"E o mundo, a vida e a puta que pariu não costumam perdoar os românticos." Nova pausa, outro gole e mais umas tragadas. "Eu sei que esse emprego e essa história de gerente trainee podem nem ser grande coisa pra ti. Quantos anos? Vinte e dois, vinte e três...", Confirmei, "Vinte e três, na semana que vem." "E vamos comemorar aqui, no Jairo. Mas olha só. Vinte e três! Toda uma vida pela frente. Então eu vou te contar umas coisas... que você não sabe...". A essa altura a fala já estava enrolada. E depois de outro gole, pausa e tragada, arrematou, com uma certa teatralidade: "Minha família já foi subversiva! Bem, ao menos uma parte dela. E eu? Eu era, um pouco."
"Sabe o que mais me agrada em ti...?" Fez uma pausa, e enquanto escolhia as palavras, deu um gole, acendeu mais um cigarro e ficou me encarando com os seus olhos esbugalhados. Balancei negativamente a cabeça, com um ar um tanto divertido. "Tu és um pouco parecido comigo, Paulo. Tu és honesto e ingênuo, como eu era! Honesto demais, essa é a verdade. Inteligente, sim. Mas honesto. Só que um honesto do tipo romântico, e ingênuo. Aliás, anota aí, todo o romântico é um ingênuo. E essa frase é minha, pode registrar". O Jorge adorava esses clichês, cuja a autoria ele sempre atribuía a si mesmo.
"E o mundo, a vida e a puta que pariu não costumam perdoar os românticos." Nova pausa, outro gole e mais umas tragadas. "Eu sei que esse emprego e essa história de gerente trainee podem nem ser grande coisa pra ti. Quantos anos? Vinte e dois, vinte e três...", Confirmei, "Vinte e três, na semana que vem." "E vamos comemorar aqui, no Jairo. Mas olha só. Vinte e três! Toda uma vida pela frente. Então eu vou te contar umas coisas... que você não sabe...". A essa altura a fala já estava enrolada. E depois de outro gole, pausa e tragada, arrematou, com uma certa teatralidade: "Minha família já foi subversiva! Bem, ao menos uma parte dela. E eu? Eu era, um pouco."
"Hoje? Hoje eu sou a Suíça!", continuou Jorge. "Tá vendo o Jairo ali? O Jairo esteve do outro lado. Ele sabe de tudo, tudo o que acontecia no Palácio da Polícia. Bem, continuando... eu fui um pouco subversivo quando tinha mais o menos uns 23 anos. Já ouviram falar do Coronel Cardim? Da tomada de Três Passos? Pois é. Meu tio, o irmão de minha mãe, participou daquilo tudo. Acontece que todos nós lá em casa éramos brizolistas naquela época. 1965! Vocês sabem o que fizeram com eles? Com a turma do Cardim? Não, não sabem. Bem, não sou eu quem vai contar!". Aquilo soava realmente engraçado e um tanto surreal para mim e para Ricardo.
"Mas o que realmente importa, e o que eu quero te falar, Paulo, e para ti também, Ricardo, é..." Nova pausa, gole e baforada. "Cuidado, eles podem voltar!" Ricardo então rebateu: "Quem, Jorge, os milicos?!" "Claro, os milicos, os verde-oliva, o esteio da nação, ou tu achas o que? Que se eles quiserem, não dão o bote novamente?" Ricardo rebateu: "Jorge, esses caras estão completamente desmoralizados, demais para pensarem em voltar. Olha as barbaridades que fizeram, e o estado que eles entregaram o país!" Jorge insistiu: "Gurizada, ouçam. Esses caras só foram ali dar uma cuspida. Então se as coisas não andarem como eles quiserem, eles voltam. Sabe o motivo? Esses caras acham, por razões que eu desconheço, que eles são a pátria, entendeu? O povo para eles é só um apêndice, entende? Que quando inflama, eles cortam e jogam fora. Entendam bem, não é que eles achem que são os defensores dela, da pátria, e coisa e tal. Eles pensam, mesmo, que são a própria. Então, me ouçam, se cuidem. Essas greves, essas manifestações... Se cuidem!"
Enquanto o seu Jairo cuidava para que os copos não ficassem vazios, as palavras do Jorge iam ficando cada vez mais desconexas e distantes. Pari passu, a medida que a penumbra redesenhava contornos, os donos da noite na Voluntários ocupavam seus feudos.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Dentro dos olhos dela...
o universo amanhecia...
dentro dos olhos dela.
E havia uma janela
que dava para horizontes
dentro dos olhos dela.
O trem e a marmita fria,
as horas de trabalho sem fim,
a volta, enfim, e o cansaço
a se esvair num regaço
dentro dos olhos dela.
Dentro dos olhos dela
as luzes se acendiam...
dentro dos olhos dela.
E ainda que o mundo não quisesse,
as noites eram sempre quermesses
dentro dos olhos dela.
Dentro dos olhos dela
o universo amanhecia
e dentro dos olhos dela
havia uma janela
que dava para horizontes...
dentro dos olhos dela.
Assinar:
Postagens (Atom)