segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Caixinha de Música

Clair de Lune, Debussy e a bailarina,

Tão linda e indiferente,

Bailando só, em seu pequeno universo;

Não que o meu mundo fosse pequeno, era maior do que é agora,

O estranhamento, as tempestades, os espelhos d’água;

Mas a bailarina em seu pequeno universo,

Bailando só, sob Clair de Lune, Debussy,

Era o universo só meu.


Carlos Augusto Machado.


sexta-feira, 3 de junho de 2011

As Manhãs do Menino Deus

Quando dobrei a esquina, o sol esperava por mim;

Ele me disse bom dia e eu o agradeci com um sorriso.

Mais adiante, quando cheguei à praça, flores me esperavam;

Elas me acenaram e eu as retribui com um gassho.

O Bem-te-vi cantou quando passei, e então assoviei para ele “Morning has broken”.

E enquanto eu seguia em meio ao concreto, o abstrato subvertia a ordem, as cores, o canto e a poesia.

O Porto era tão Alegre nas manhãs do Menino Deus!

Carlos Augusto Machado.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"Eu acredito em fadas! Acredito! Acredito!"


Baudelaire disse em algum lugar que “...existem certas sensações deliciosas cuja vagueza não exclui a intensidade...”
Isso se parece com uma sensação efêmera, que de quando em vez, como se fosse uma alegria inusitada e enigmática, me visita.
Não sei onde ela mora, nem para onde vai quando me deixa. Surge assim, como uma saudade fugaz, e quando tento perscrutá-la, ela se esvai.
Seria esta sensação aquela “alegria perdida” de que falou Kerouac? Acredito que não, pois ele também disse que tal alegria somente poderia ser reproduzida “...no momento da morte.”
Gosto de pensar que este contentamento súbito e inadvertido tenha alguma coisa a ver com a magia de Peter, o Pan. Sim, o mesmo Peter Pan que nos disse uma vez, quando éramos meninos, que para voar bastaria que tivéssemos “pensamentos felizes” – e qual de nós, nem que tenha sido por um átimo apenas, não hesitou em acreditar?
Suspeito mesmo de que ela seja um fragmento imemorial daquela magia etérea, que só os meninos conhecem, mas que depois acabam por esquecer, quando descobrem a cobiça, a malícia, as decepções e as ideologias.
Mas no que consiste então essa visitante peregrina? Dela posso dizer apenas que, não obstante a sua vagueza e fluidez, quando aparece, sua claridade é como a do sol de primavera nas asas de uma borboleta.
Nessas ocasiões meu coração trôpego, enrijecido pela longa noite de inverno, se asserena e todos os aposentos se iluminam com essa felicidade inesperada, extemporânea e cálida.
Recalcitramos em aceitar que o caminho para o "conhece-te a ti mesmo" é sempre solitário e que nesse périplo as fantasias, inevitavelmente, vão ficando pelo caminho. 
Mas às vezes, quando essa alegria indizível e sem razão aparente me visita, bate uma vontade incontida de dizer baixinho: “Eu acredito em fadas! Acredito! Acredito!” 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O que o coração nunca esquece

Onde você está? É tarde agora. Meus velhos sapatos recobertos de poeira descansam atrás da porta. Quando sinto a tua falta vou até a margem do rio e espero pelo sol. Às vezes sento-me junto ao alpendre e apenas espero. Você nunca me disse teu verdadeiro nome, mas me ensinou a dançar, e eu te ensinei a olhar as estrelas. Um beija-flor e uma canção antiga me fizeram companhia ontem, e à noite, a brisa soprou mansinho, com uma saudade benfaseja. Te amo como sempre!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Revelações

Sentada em frente à calçada, ela sublinhava substantivos abstratos;
ensimesmada, não percebeu que o outono sucumbira ao inverno,
e que o inverno também já sucumbia.

Mas quando a orla da tempestade surpreendeu o subúrbio,
seus dedos longos e pálidos apalparam o horizonte,
e então finalmente ela sabia...

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tatana...

...eu sei. É que aquela velha casa esconde em seus cantos um pouco da felicidade que não foi embora. Pssiu... Silêncio...Ouve... Há um sorriso antigo escondido embaixo da escada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Naquele Lugar

Naquele lugar, porque eu sempre os guardarei ali, próximo à fronteira argentina e longe da ampulheta dos dias e de seus ocasos,

Paulo e Beatriz brincam para sempre, indiferentes ao carrossel e sua velocidade atroz.

Naquele lugar a felicidade dos hiperbóreos também armou sua tenda; ah, como eu queria...

Paulo leva os dedos aos olhos e Beatriz o ama.

Dias atrás alguém me disse que Beatriz fora vista em Balneário Camburiu e que Paulo se mudara para a Tijuca.

Claro que se trata de um engano!

Porque Beatriz e Paulo continuam ali, naquele lugar inefável, próximo à fronteira argentina e longe da ampulheta dos dias e de seus ocasos.