sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Portas Giratórias


Não falo o teu nome já tem algum tempo

Queria também não pensar, mas isso já seria esperar em demasia

Ontem criei coragem e fui até aquele lugar, o lugar que era nosso

Fiquei por ali um tempo, pensando

É estranho, mas quando me lembro de nós dois, juntos

vejo um outro cara contigo, e não eu mesmo

Assim: o cara se parece comigo e eu até lembro bem dele...

mas não sou eu, ou pelo menos não este eu que aqui está

Queria encontrar esse sujeito

Talvez ele tenha algo a me devolver

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."   José Saramago                                                                                    

domingo, 9 de setembro de 2012

A face secreta da despedida


Sentei-me em frente ao deserto

Acima as estrelas nuas e no horizonte a solidão

Assoviei uma canção

Nenhuma perspectiva à espera

Ou quimera

A felicidade e o medo roçando as pontas dos dedos

Tudo novo....

Rompe-se a casca do ovo!

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Diário de um viajante


Nunca mais voltei àquele lugar!

Tentei muitas vezes...

Mas nunca mais consegui encontrar o caminho de volta

Muito tempo se passou até que eu percebesse:

Aquele lugar estava perdido para sempre

E outro tanto se passou até que eu percebesse:

Aquele lugar estava bem guardado

Eu jamais o perdera, de fato.

domingo, 17 de junho de 2012

Noites bárbaras


Quando ela alcançou o perigeu acendemos nossas fogueiras

Dançamos dentro da noite

Cantamos canções e subvertemos a gravidade

Erguemos um monumento às estrelas

Um brinde ao tempo e aos sonhos

Nossas risadas ecoaram na madrugada

Provocaram faíscas que arranharam a escuridão

O apogeu sobreveio aos anos

Cobriu de silêncio as lembranças daquela celebração de passagem

Mas eu sei, as brasas ainda resistem sob as cinzas do esquecimento




quarta-feira, 13 de junho de 2012

Toda a beleza da vida nas asas de uma borboleta



A manhã nasce esplendorosamente iluminada

Uma pequena borboleta espreguiça-se no recanto do diminuto jardim abandonado

Em breve ela irá lançar-se em direção ao desconhecido

O sol aquece suas frágeis asas amarelas

Ela nada sabe sobre o futuro, vaticínios ou desilusões

Alçará seu voo delicado num desafio ao imponderável

A cidade nada sabe sobre esse singelo e singular espetáculo

As avenidas esfumaçadas e seus transeuntes apressados lhes serão indiferentes

O mundo lhe será indiferente

E assim ela irá realizar o seu destino despretensioso e mágico

Quando a tarde conhecer o seu ocaso eu a verei novamente

Inerte, asas conspurcadas, quase irreconhecível

Jazerá na poça enlameada de uma esquina sombria

E então, uma parte fugaz do mistério que envolve a beleza da vida ela terá carregado consigo

E eu a levarei comigo, em algum lugar de minha retina esgaçada.





sábado, 2 de junho de 2012

É a ela que amo


Distingo aquela flor dentre todas as outras

Não sei se é a mais bela

Mas é a ela que amo

Sei de sua transitoriedade

E das palavras, que não podem expressá-la

Porque também transitórias

Ante a efemeridade, cada olhar é um universo e a eternidade

E cada verso um artifício

Ofício de quem tenta subverter as horas

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Texturas ocultas


Hoje o espelho revelou-me as fendas profundas por onde os dias se foram,

e um  sentimento estranho, de quem finalmente encontrou as respostas,

mas que não consegue mais se lembrar das perguntas.

Ainda ontem eu estava sentado nos degraus da tua casa

e observava os beija-flores que flanavam em teu jardim,

sob o sol,

sobre os telhados da cidade.

O mundo, então, era um lugar sem muros.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A menina que colecionava sorrisos


“O olho que contempla o céu estrelado, que distingue aquela luz que nem ajuda , nem atrapalha e que nada tem em comum com a terra e suas necessidades, este olho vê nesta luz a sua própria essência, a sua própria origem... O céu lembra ao homem o seu desígnio, lembra-o de que ele não nasceu somente para agir, mas também para contemplar.”


                                                                                                                        Ludwig Feuerbach





Alguns a achavam excêntrica, outros apenas um pouco estranha. Mas todos concordavam numa coisa, que Gabriela, treze anos, era diferente.

Quando conhecia alguém, ela não fazia perguntas do tipo, qual o teu nome? de que família você é? em que bairro você mora? qual a tua profissão? Não! A menina, para constrangimento de alguns e deleite de seu pai, achava que isso dizia muito pouco a respeito das pessoas.

Então, quando era apresentada a alguém suas perguntas, invariavelmente, eram do tipo, qual a tua música preferida? e a cor? qual o livro de que mais gotas? já escolheste uma estrela só pra ti? e se sim, podes me mostrá-la quando anoitecer?

Lembro-me de uma das perguntas que me fez quando a conheci:

- Tu já fizeste alguma viagem para bem longe? Se sim, me conta como foi?

Uma das coisas de que Gabriela mais gostava era de dar presentes, e os presentes de Gabriela eram como o sol de primavera, pequenos tesouros para serem guardados dentro do peito.

O dia em que lhe falei de minha partida, de minha mudança para muito longe, anunciou que me daria um presente.

E assim, alguns dias depois, ela apareceu com aquele pequeno embrulho, em cujo papel havia desenhos delicados e coloridos. Quando eu quis abri-lo ela me disse para não fazê-lo, que esse presente não era para aquele dia, mas para um outro, que ainda estava em algum lugar no futuro. “Mas quando?”, eu perguntei. Ela respondeu-me simplesmente que eu saberia. Então pensei comigo, “... é a Gabriela e suas esquisitices!” Mas decidi aceitar a brincadeira. Guardei o pacotinho em algum lugar de minha bagagem e ele ficou ali, por muitos e muitos meses.

Tempos depois, numa noite de poucas estrelas e de coração solitário lembrei, num sobresalto, do pequeno pacote, e disse pra mim mesmo, “Sim! Só pode ser hoje.” Procurei nos muitos compartimentos de malas e de bolsas e o encontrei finalmente.

Com o coração aquecido por uma felicidade extemporânea eu abri o pequeno pacote. Dentro dele havia uma pequena caixa, de fósforos, onde Gabriela desenhara muitos sóis e escrevera uma frase: “Em meu coração, eu guardei todos os teus sorrisos.”

Dentro da caixa havia uma folha de papel bem dobrada. Em uma das dobras estava escrito: “Este é o teu presente, abra e leia-o, e guardes contigo; é do teu poeta preferido, aquele que também gostava de ser chamado de Caeiro .”



Na folha igualmente cheia de desenhos coloridos estava escrito:


Quando tornar a vir a primavera

Talvez já não me encontre no mundo.

Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente

Para poder supor que ela choraria,

Vendo que perdera seu único amigo.

Mas a primavera nem sequer é uma coisa:

É uma maneira de dizer.

Nem mesmo as folhas tornam, ou as folhas verdes.

Há outros dias suaves.

Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

                                                                            Fernando Pessoa



E foi o presente mais lindo que ganhei na minha vida!

                                                                                                        Carlos Augusto Machado























Final de domingo


Em silêncio meus olhos esquadrinhavam a tarde que partia.

Não porque não houvesse nada para ser dito:

Havia!

Mas não era imperioso dizê-lo.

O céu lavado pelo temporal que se fora,

A primeira estrela da noite, 

E os meus braços cingindo os teus.

Uma derradeira réstia de luz esgueirou-se por entre as frinchas da janela e veio aninhar-se na comissura dos teus lábios.

Através da vidraça vi a silhueta da noite esparramar-se sobre a urbe.

domingo, 8 de abril de 2012

Sulcos que o verniz não encobre


Porque “...nadie puede matar lo que ya há sido...”,

Eu ainda guardo na minha o gosto secreto da tua boca;

E o sol despediu-se tantas vezes desde então.



Porque “...nadie puede matar lo que ya há sido...”,

As pequenas coisas continuaram significando tanto,

O perfume discreto da tua nuca e a misteriosa delicadeza daquele teu sorriso terno e breve.



O rio do qual eu gosto

Gosto deste velho e generoso rio às margens do qual plantei árvores e amizades, tive um amor e um filho, escrevi singelas e prosaicas histórias; talvez por gostar de distâncias, ele não se resignou em escolher o traçado mais curto para chegar ao mar; teatino, serpenteou serras, planicies e lonjuras para juntar suas águas às das cataratas; gosto deste velho e generoso rio

As coisas do espaço-tempo

Resultado de imagem para espaço tempo

Pode parecer estranho, mas a Teoria da Relatividade me autoriza a crer que aquilo que foi continua sendo em algum lugar do espaço-tempo, e então,

                                  exatamente neste momento 

de algum lugar distante do universo e através das estrelas, alguém pode estar observando aquele nosso longínquo, inefável e fugaz primeiro beijo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O menino e a primavera

O menino caminha pela calçada levado pela mão de sua mãe;
Enquanto vai, o menino pula, aponta para a nuvem, tenta alcançar a borboleta, sorri para o transeunte;
Sua mãe, talvez por carregar um mundo sobre as costas, simplesmente segue, absorta.