quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre os Pequenos Milagres da Vida



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Ela desabrochou com as primeiras horas do dia. 

E sem alardes, 
sem nenhuma razão aparente 
e também sem qualquer outra pretensão, 
que não a de desabrochar
simplesmente, 
projetou suas pétalas em direção ao sol, 
delicadamente. 
Uma borboleta prostrada e velha, 
um beija-flor que há muito não beijava 
e uma abelha exaurida, que há algum tempo perdera suas asas e agora só observava, 
observavam. 
A tarde veio e se foi.
A borboleta, pelo discreto, errático e derradeiro voo,
o beija-flor, por seu último e mais apaixonado beijo 
e a abelha, pela doçura inaudita daquele último néctar,
agradeceram por ela,
e pelos pequenos milagres da vida.
Quando a noite chegou, enfim,
só os pirilampos testemunharam a partida!         

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Universos Paralelos



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Não, não abras a janela! 
Lá fora, eu sei, amanhece. 
Mas aqui, em nosso pequeno universo,
estrelas andarilhas ainda desfiam seus novelos
suspensas sobre o véu e a faina. 
Quando a janela se abrir, amor, acredites,
o dia há de incinerar os sonhos,
e a avidez há de apagar as promessas.
Mas aqui, em nosso pequeno universo encapsulado pela bruma,
e onde os astros rabiscam suas trajetórias excêntricas,
chego a crer, com a ingenuidade dos bêbados, 
que é possível, sim, 
que tudo já estivesse escrito nas estrelas.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

apenas há alguns instantes




Depois de olhar descuidadamente para os dois lados ela atravessou a rua e andou, sem pressa, por mais duas quadras até chegar a Alameda das Borboletas. Percorreu ainda alguns metros e deteve-se junto as escadarias do velho prédio. O tempo, há muito, igualmente detivera-se ali. Seus olhos buscaram por algo que só a lembrança retivera: Risos e flores indiferentes ao concreto insípido; olhares furtivos que prometiam o desconhecido; roçar de lábios e de dedos; estranhamentos desafiavam as tardes baldias depois da escola. Tudo impregnara tudo, e a gravidade dos anos não conseguiu obliterar a leveza e a bruma ali onde a felicidade, um dia, aninhara-se apenas para observar os filhos prediletos da primavera. Além daqueles limites, só os escombros e a entropia.  

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Menina, bom dia

"... as coisas agora estão diferentes de como que eram antes..."





Olhos cor-de-sol





Gabriela


Continuo te esperando... Quem me dera que em uma manhã qualquer, por algum equívoco do espaço-tempo, tu entrasses por aquela porta, mochila nas costas, sorriso nos lábios e a face iluminada pelo sol de uma primavera imemorial!


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Mais um dia

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As costas contra as cordas denunciavam a aflitiva posição no ringue. O último golpe na linha da cintura o deixara completamente sem ar. Esforçava-se para manter a cabeça oculta atrás dos punhos vacilantes, mas o sangue que vertia de seus supercílios abertos deixava a sua visão turva. Lembrou-se, então, daquela manhã de setembro e do sol refletindo no rosto dela. Vestia uma camiseta amarela com pequenas flores vermelhas; os cabelos soltos, os olhos amendoados e as mãos inquietas, de uma alva delicadeza. O adversário, implacável, continuava a castigar-lhe, agora com uma combinação que parecia interminável. Mas foi um jab de esquerda que fez seus joelhos dobrarem. Apelou para o clinch, e apenas por um instante a lona pareceu-lhe o destino inexorável. Foi na primavera de 1986; Paulo descia pela Rua Dr. Flores e Yasmine estava em frente a uma vitrine; os olhos dele buscaram os dela e desde então eles foram os seus faróis. Buscou uma última lufada de onde não havia; levantou os olhos, endireitou os joelhos trêmulos e refez a guarda num derradeiro e tormentoso esforço. Ele sabia que as duas coisas realmente importantes àquela altura eram, permanecer em pé, e continuar respirando. E foi o que fez. O gongo soou. Claudicante, foi para o corner solitário - os corners são sempre solitários. Amanhã seria um outro dia! E tudo o que ele podia fazer, pelo menos por ora, era permanecer em pé... e respirando!