quinta-feira, 3 de setembro de 2020

 

Recostada contra a parede do alpendre, uma réstia de sol assomava-lhe a pálpebra.

Os lêmures deixaram para trás um murmúrio, inaudível aos céticos e aos pobres.

A manhã se fora e a tarde... bem, a tarde ainda não dissera a que viera.

"E se um demiurgo louco esquecesse de inventar o tempo? Nesse universo improvável talvez os teus lábios ainda estivessem colados aos meus, para sempre".


 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Melancolia



Chovera intensamente a noite toda. Pela manhã, as ruas e praças eram quase um charco. Os prédios pareciam bunkers e dentro deles almas melancólicas se entrincheiravam à espera de que o sol lhes viesse redimir. O sol não veio, e continuou chovendo - agora uma chuva modorrenta - durante todo o dia. A certa altura, como se fosse uma orquestra de loucos, as buzinas lá fora prenunciaram que a noite estava ali, à espreita. Pensei, "...e se ela me ligasse? Se ela me ligasse o sol, certa e mansamente, retornaria". "Quanta bobagem", concluí. Meu gato, em sua sabedoria elementar, de gato, depois de dormitar ao longo da tarde, indiferente à qualquer devaneio sobre ligações telefônicas em uma eventual conexão com o retorno do sol, veio roçar-se, maliciosamente, em minhas pernas.  "Ahá, também estas melancólico, né?!" . De súbito, entretanto, lembrei-me! A bem da verdade, o que Theo sentia não era bem melancolia. É que estava na hora de reabastecer a sua tigela de ração. Bem, pelo menos alguém, naquele apartamento soturno, não perdera de todo a sanidade.      

domingo, 14 de junho de 2020

A Noite da Cidade Baixa



Hotel Cidade Baixa Porto Alegre | Hotel Intercity Cidade Baixa
Já vai longe aquela noite em que, Cidade Baixa adentro, saímos a explorar os bares e sua fauna notívaga.

Tu me falaste dos sonhos que ficaram pelo caminho, e eu te contei uma história estranha, de um fim de tarde em Montevidéu.

Guardo vividamente aquela canção que cantarolaste sentada na calçada enquanto tentavas perscrutar as estrelas,
"Todas las mañanas que viví, todas las calles donde me escondí..."

O luminoso faiscante do motel barato prometia a satisfação plena dos desejos ou a esperança de volta.

Quando o sol despachou todos os habitantes noturnos de volta aos seus recantos encobertos, recostaste tua cabeça em meu ombro, e adormecemos.




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Erval Seco

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Madrugada serenada! O Erval se ressente pela chuva que não veio.
Uma noiva vestida de branco atravessa a rua dormente.
Abandonada no altar, suicidara-se. 
Da janela da mansarda eu a espio.

Enquanto todos os pássaros jazem em seus ninhos
eu asseguro às estrelas que jamais a abandonaria.

Engendro sonhos e adormeço. 

Um sopro repousa à margem da estrada, sob o caminho de leite.
Nunca mais tornarei a vê-la, e para sempre engendrarei sonhos!



quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Ambição


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Seu problema era "não ter ambição alguma!", dizia-lhe com frequência Sabrina, sua esposa. Mas o que ela não sabia, e Luis, seu marido, considerava infrutuoso explicar-lhe, era que ele, ao contrário, possuía sim, uma ambição desmedida. Afinal, quantos, como ele, dispensariam tanto e tão precioso tempo e esforço para conseguir destilar todo o sentido e consequência daquilo que Marcela disse por ocasião da morte de Crisóstemo,  por exemplo?! Não. Sua mulher desconhecia o tamanho e a qualidade de sua ambição desmedida. Sorver em cada página os aromas que elas exalam; fechar os olhos e buscar farejar na brisa da noite o doce odor dos pilriteiros À Sombra das Raparigas em Flor; definitivamente isso era para ele uma ambição quase obsessiva. O curioso era que ela o queria justamente mais ambicioso. E por essa razão, às vezes, ele se sentia um pouco culpado por ocultar de Sabrina a natureza e a intensidade de sua ambição, pois tinha por evidente que não era dessa que ela tratava. Então, à noite, depois de retornar das atividades que ele tomava por medíocres, e enquanto Sabrina, ávida, assistia ao Show do Milhão, Luís entrava em sua pequena sala e ali ambicionava, com todas as forças de sua imaginação, prescrutar cada sensação subliminar de Sê um viajante numa noite de Inverno, e acabava por concluir sempre que ainda lhe careciam muito do tempo e dos recursos necessários à tal empreendimento.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Os loucos, seus solilóquios e os meninos



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Era um livrinho antigo, recheado por uma prosa igualmente antiguada e clichê; seus personagens, como que alheios às estruturas sociológicas pertinentes ou recomendáveis, mas que alguém identificará como pequeno burguesa, só falavam por uma espécie de solilóquio anacrônico, do tipo, "Eu espero! Quando a tarde se for por detrás do campanário, tu, finalmente, dirás que me ama. Mas se a lua vier sem que o digas, eu espero. E então esperarei pela aurora, e creio que ali, tu o dirás. Contudo, se esqueceres, por alguma razão qualquer, eu ainda estarei a espera". Como veem, uns loucos! Mas o menino os amava, e sonhava longe, com seu coração de menino e relances do primeiro amor às primeiras letras.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Das coisas que ela nunca saberá

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Enquanto a luz se estilhaçava contra a calçada fria da cidade lúrida,
um pequeno gesto, inerme e delicado, sustou, por um átimo
o tempo, o som, o sol e tudo que passava.

Os dedos delicados dela tocaram-lhe as faces hirsutas.
Seus lábios lhanos e lívidos sussurraram-lhe algo
e um sorriso que, como as pombas da Alfândega, abriu suas delicadas asas e se perdeu para sempre na tarde alheia.

Eles nunca saberão de mim
e a cidade nunca saberá...

Do lugar donde eu me encontrava imaginei um sussurro, inaudível:
"não te vás, fiques mais um pouco!"