Apenas por um dia é a natureza daquilo que é efêmero, transitório, impermanente, mas nem por isso menos belo, singular ou desprovido de importância. Sempre haverá uma perspectiva, um fragmento encoberto, que faz com que algo qualquer envolva alguma qualidade incomum, ainda que ambígua, mas por isso mesmo, rara.
" Só feche seu livro quem já aprendeu Só peça outro amor quem já deu o seu Quem não soube a sombra, não sabe a luz Vem não perde o amor de quem te conduz "
Ela desabrochou com as primeiras horas do dia. E sem alardes, sem nenhuma razão aparente e também sem qualquer outra pretensão, que não a de desabrochar simplesmente, projetou suas pétalas em direção ao sol, delicadamente. Uma borboleta prostrada e velha, um beija-flor que há muito não beijava e uma abelha exaurida, que há algum tempo perdera suas asas e agora só observava, observavam. A tarde veio e se foi. A borboleta, pelo discreto, errático e derradeiro voo, o beija-flor, por seu último e mais apaixonado beijo e a abelha, pela doçura inaudita daquele último néctar, agradeceram por ela, e pelos pequenos milagres da vida. Quando a noite chegou, enfim, só os pirilampos testemunharam a partida!
Não, não abras a janela! Lá fora, eu sei, amanhece. Mas aqui, em nosso pequeno universo, estrelas andarilhas ainda desfiam seus novelos, suspensas sobre o véu e a faina. Quando a janela se abrir, amor, acredites, o dia há de incinerar os sonhos, e a avidez há de apagar as promessas. Mas aqui, em nosso pequeno universo encapsulado pela bruma, e onde os astros rabiscam suas trajetórias excêntricas, chego a crer, com a ingenuidade dos bêbados, que é possível, sim, que tudo já estivesse escrito nas estrelas.
Depois de olhar descuidadamente para os dois lados ela atravessou a rua e andou, sem pressa, por mais duas quadras até chegar a Alameda das Borboletas. Percorreu ainda alguns metros e deteve-se junto as escadarias do velho prédio. O tempo, há muito, igualmente detivera-se ali. Seus olhos buscaram por algo que só a lembrança retivera: Risos e flores indiferentes ao concreto insípido; olhares furtivos que prometiam o desconhecido; roçar de lábios e de dedos; estranhamentos desafiavam as tardes baldias depois da escola. Tudo impregnara tudo, e a gravidade dos anos não conseguiu obliterar a leveza e a bruma ali onde a felicidade, um dia, aninhara-se apenas para observar os filhos prediletos da primavera. Além daqueles limites, só os escombros e a entropia.