Não quero lembrar do ano passado. Não gosto de pensar sobre ele, o ano passado. O ano passado poderia ser engolido por alguma espécie de dobra do espaço-tempo, e para mim não faria a menor diferença. Mas de qualquer modo, tanto faz; eu já nem me importo mesmo com seja-lá-o-que-tenha-acontecido-no-ano-passado. Essa manhã, contudo, logo depois de acordar, fui até a janela e antes de abri-la me detive por alguns instantes. Algo pareceu-me novo. Um não-sei-o-quê de indistinguível, de sol, talvez, ou talvez por dentro, não sei. Num canto da calçada, ali na frente, um ramo verde se contorcia para vencer a fenda no concreto. "A cidade um dia já fora mais gentil", pensei, "quando ela ainda não sabia bem o que era ser uma cidade".
Apenas por um dia é a natureza daquilo que é efêmero, transitório, impermanente, mas nem por isso menos belo, singular ou desprovido de importância. Sempre haverá uma perspectiva, um fragmento encoberto, que faz com que algo qualquer envolva alguma qualidade incomum, ainda que ambígua, mas por isso mesmo, rara.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2023
Hibernação
terça-feira, 2 de fevereiro de 2021
O Lugar dos Afetos Atemporais
Havia esse lugar...
E ainda que restassem poucas coisas ali, sob uma fina camada de pó, calátides, envoltas pelas horas de outras eras, jaziam, marcas profundas e indeléveis.
Um fim de tarde tingido pelo sol de outono; a camiseta, que um dia já fora vermelha mas agora esmaecera em amarelo; páginas arrancadas de um velho hinário; um sussurro ou outro se esgueirando pelas frinchas; películas em celuloide com imagens de uma outra vida que um dia, talvez, fora a minha.
Tentei algumas vezes, sem êxito, dispensar esses inquilinos extemporâneos, incômodos por sua falta de serventia.
Acontece que o lugar em que habitam está fora da minha jurisdição. É o lugar dos afetos imperscrutáveis, deeps words.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
As Promessas e seu algoz
"Promessas foram feitas para não serem cumpridas!". Lembro-me bem do impacto que a frase exerceu sobre mim quando a ouvi pela primeira e única vez, diretamente dos lábios do ancião sábio e peregrino. Lembro-me também de tentar, pronta e atabalhoadamente, com veemência sem contudo atacar a premissa básica, retrucar-lhe: "Mas as promessas são, a seu modo, lugares de felicidade". "Para quem? Para os ingênuos, os tolos, ou para os jogadores?". Décadas depois, sentado à beira do crepúsculo, faço um balanço de todas as promessas que fiz e das que me fizeram e, lhano, concluo, mas ainda como se fosse uma aspiração juvenil: O algoz das promessas é o tempo, e não os olhos dela...
terça-feira, 22 de setembro de 2020
O menino e seu primeiro amor
O pátio apinhado de infantes vestidos de azul; a longa escadaria que dava acesso ao prédio principal e à sua arquitetura severa; risadas que pipocavam aqui e ali e que contrastavam com um sol preguiçoso que parecia um tanto indisposto naquela manhã de março.
Ela estava ali, parada, um pouco à frente na fila ao lado da sua.
Ele aproximou-se o tanto quanto pode, e tentou articular uma frase. Mas as palavras demoraram uma eternidade para chegar-lhe aos lábios.
Blem, blem, blem.
A fila começou a mover-se, mas ele permaneceu estático. Seus olhos continuaram cativos, cravados nas mechas que delicadamente pendiam ao longo da sua nuca.
- Tá dormindo?! Mexa-se, vamos!
Naquela manhã, pela primeira vez em sua vida ele descobriu, perplexo, que seu coração lhe era um desconhecido: socando seu peito como um louco, estava a ponto de escapar-lhe pela boca.
segunda-feira, 21 de setembro de 2020
As graças de cada dia
Ela era sem graça, todos sabiam, e diziam.
Ele também não tinha maiores atrativos.
Um dia se conheceram, e encheram de graça e de atrativos o mundo que inventaram.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Recostada contra a parede do alpendre, uma réstia de sol assomava-lhe a pálpebra.
Os lêmures deixaram para trás um murmúrio, inaudível aos céticos e aos pobres.
A manhã se fora e a tarde... bem, a tarde ainda não dissera a que viera.
"E se um demiurgo louco esquecesse de inventar o tempo? Nesse universo improvável talvez os teus lábios ainda estivessem colados aos meus, para sempre".
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Melancolia
Chovera intensamente a noite toda. Pela manhã, as ruas e praças eram quase um charco. Os prédios pareciam bunkers e dentro deles almas melancólicas se entrincheiravam à espera de que o sol lhes viesse redimir. O sol não veio, e continuou chovendo - agora uma chuva modorrenta - durante todo o dia. A certa altura, como se fosse uma orquestra de loucos, as buzinas lá fora prenunciaram que a noite estava ali, à espreita. Pensei, "...e se ela me ligasse? Se ela me ligasse o sol, certa e mansamente, retornaria". "Quanta bobagem", concluí. Meu gato, em sua sabedoria elementar, de gato, depois de dormitar ao longo da tarde, indiferente à qualquer devaneio sobre ligações telefônicas em uma eventual conexão com o retorno do sol, veio roçar-se, maliciosamente, em minhas pernas. "Ahá, também estas melancólico, né?!" . De súbito, entretanto, lembrei-me! A bem da verdade, o que Theo sentia não era bem melancolia. É que estava na hora de reabastecer a sua tigela de ração. Bem, pelo menos alguém, naquele apartamento soturno, não perdera de todo a sanidade.