quinta-feira, 30 de maio de 2019



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Eu quis que você ficasse
Te falei tantas coisas sem pensar
e pensei outras tantas, que não disse

Dia desses ouvi alguém falar o teu nome
e então me dei conta de que a primavera também se fora

A tua ausência impregnou as fendas do velho apartamento
e os rabiscos, ainda espalhados pelo chão, são os vestígios
de um tempo em que a felicidade rondava por ali

terça-feira, 14 de maio de 2019

A poça



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Claudiquei, mas me refiz a tempo de lembrar do teu riso
Os pensamentos dispersos, os contornos da rua, o teu nome rabiscado na calçada
Ruídos silenciosos e silêncios ruidosos pululavam aqui e ali

O temporal se fora
O céu estava limpo, agora
E então, finalmente, as estrelas!

A árvore caída sobre o meio fio dizia algo sobre o efêmero,
pela manhã  ninguém mais se lembrará de que ela, um dia, estivera 

A lembrança de uma canção noturna
O sinal perdido de wi-fi
O giz
A poça
E uma quimera

sábado, 19 de janeiro de 2019

No espelho da noite eu era Gregor Samsa

- Constantina!
Uma lâmpada vacilante lançava sua luz de um amarelo envelhecido contra o interior do pequeno barco sacolejante que cruzava o rio Madre de Dios no meio da noite. Bem mais distante estavam as luzes de Puerto Maldonado que bruxuleavam no lado oposto da margem. Sobrepondo-se ao breu, o esqueleto da ponte metálica que ligaria a duas pontas da Carretera Interoceânica  mais parecia a carcaça de um grande e ancestral animal há muito extinto.
- Conhece? Constantina?
O sujeito havia embarcado comigo em Rio Branco, no Acre, e depois de um dia inteiro de viagem em que quase não se ouvira dele uma palavra sequer, de repente, no meio daquela travessia insólita, contra o ruído do motor e meio que aos berros, resolvera puxar assunto!
- Conheço, de passagem. Fica próximo a Sarandi, não é?
- Isso. Pensei ter ouvido tu dizeres que era de Cruz Alta... presumi que podia conhecer... Constantina.
- Tu és de Constantina?
A minha pergunta banal pareceu tê-lo tomado de surpresa e, por alguma razão, o embaraçado. Ele desviou o seu olhar para algum lugar no escuro da noite; fez uma longa pausa, e quando eu já achava que havia se recolhido novamente ao seu silêncio mineral, irrompeu, com um sorriso meio retorcido:
- Não! Eu costumava ser de Passo Fundo.
- Ah, sim - respondi, não sem esconder uma certa irritação com a forma como a resposta fora dada. Ato contínuo, ele tornou aos olhos da noite, e eu às luzes bruxuleantes.
Na outra margem, veículos que pareciam uma espécie de tuc-tuc aguardavam para levar os passageiros que seguiriam adiante até o terminal rodoviário. Novamente aquele sujeito estranho, que pelo menos agora eu sabia tratar-se de um conterrâneo, gaúcho, como eu, se dirigiu a mim, pedindo para dividirmos o tuc-tuc, que mal comportava nós dois e as bagagens.
Atravessamos Puerto Maldonado e suas ruas excêntricas. Uma espécie de película lívida interpunha-se entre nós e a cidade, permitindo-nos apenas lobrigar seus contornos. Jovens malabaristas que mais pareciam ter saído de algum conto estranho de Edgar Allan Poe pululavam pelas esquinas principais. Durante o trajeto estreitamos as apresentações e trocamos algumas outras amenidades; eu me sentia um tanto desconfortável na companhia do sujeito, que agora eu sabia chamar-se Paulo. Mal chegamos no terminal rodoviário de Puerto Maldonado e já embarcamos; o ônibus que nos levaria a Cuzcu apenas aguardava a nossa chegada para dar partida. Sentamo-nos lado a lado, e a partir daí, pouco a pouco, como se tivesse esperado longamente por um momento como esse, Paulo começou a contar a sua história fantástica.
- No verão de 1977 eu tinha 17 anos, e ela 16. Na superfície, Constantina, com sua gente, era aquilo que as pequenas cidades e seus habitantes sempre aparentaram ser em tantos outros lugares dos fundões da América Latina: tediosa e melancólica. Aparentemente!, porque é justamente em lugares como esse que os dramas humanos se desenrolam, sem aspirar notoriedade, e por essa razão, mais profundos. Eu a chamava simplesmente de Moça; ela era a minha moça. Quanto a mim?, Gregor... Gregor Samsa era o meu nome, e por Gregor Samsa ela me tratava. O nosso mundo estava situado para além dos limites daquilo que se convencionou chamar de realidade objetiva.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O sonho do trapezista



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Tudo já estava detalhado em seu plano de voo
O acrobata olharia bem fundo nos olhos do abismo
O medo seria apenas e tão somente um espectador estupefato
Suas narinas aspirariam os fragmentos da última  estrela
E assim,  pleno de universo solitário de si e na solidão da urbe adormecida 
Ele se lançaria... 
As mãos trêmulas mas resolutas tateariam frenéticas a escuridão
E no derradeiro átimo do iminente e previsível desfecho ele ainda conseguiria um vislumbre da primavera que se fora e da doçura indefinível daquele olhar que ela lhe dera   



sábado, 10 de março de 2018

Notícias improváveis de um velho jornal do interior




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Ventos fortes acompanhados de chuvas torrenciais se abateram ontem sobre a pequena cidade de Velha Esperança, no interior do país. O fenômeno da natureza obrigou o casal de namorados,  Artur e Beatriz, a se amar intensamente, por todo o dia e noite, isolados do resto da humanidade. Só um velho gato, de nome Theo, lhes fez companhia, e em suas pupilas registrou o episódio, para o caso de ainda existir alguém no universo que se interesse por crônicas prosaicas.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O horizonte de eventos e a singularidade

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- Olá!
- Oi!?
- Você mora aqui? Eu preciso de uma informação.
- Não. Na verdade eu estou de passagem. Vim visitar um amigo que mora na cidade. 
- Ah! 
- Mas talvez eu possa te ajudar de algum modo...
- Bem, eu preciso chegar no... vamos ver... na Cidade Baixa.
- Ah, é fácil. Se tu não quiseres gastar muito com táxi podes ir de lotação. Posso te levar até o ponto, não fica longe.
- Obrigada. Mas não vou atrapalhar você?
- Não, fica tranquila. Opa! Venhas por aqui. A rodoviária fica um caos em véspera de feriadões. Todo mundo querendo sair da cidade. Ir para o litoral.
- Pois é! E nós no sentido contrário, chegando, enquanto quase todo mundo está partindo, rs.
- É mesmo. Mas sabe? Essa ideia de andar na contramão... às vezes é bem interessante, e não me incomoda. Ao contrário... rs
- rs. Eu também gosto dessa perspectiva. A contramão. Parece um fluxo que contraria o tempo e o lugar. De certo modo estamos indo para onde os retirantes deveriam, mas não vão estar, entende? Um lugar ao qual as pessoas recusaram o tempo.
- Hmmm! Há alguma coisa de teoria da relatividade aí, não há não? rs.
- ah, ah, ah, ah, ah. É, acho que tem um pouco sim.
- Bem, tudo o que eu consigo acessar sobre o tema é o que o Sabato disse no Uno y el Universo, e olha lá.     
- Não brinca? Eu adoro o Sabato. 
- Pois é. Tem a parte em que ele fala do eterno retorno, como se fosse uma paisagem permanente, um modo da repetição se realizar. E isso seria uma espécie de eternidade,  o que, convenhamos, se assemelha a uma maldição, naquela concepção do demônio de Nietzsche: "essa vida terá de vivê-la inúmeras vezes." 
- Claro! Por isso eu acho que a ideia da contramão subverte de algum modo um universo sem entropia, tedioso. Mas tem um preço. O risco de um acidente é sempre eminente.  
- Chegamos! Vou esperar até que a tua lotação chegue. 
- Que bom... Você... disse que está de passagem?!
- Ah, sim. Vou ficar umas duas semanas aqui em Poa. E tu?
- Eu? Bem, eu acho que vou ficar até o fim das férias. Estou dando um tempo.
- Que interessante! De certo modo eu também, estou dando um tempo.
- Que curioso. Nós dois nos encontramos aqui, no limiar do tempo, rs.
- rs, Verdade. Olha, a tua lotação chegou... 
-  ...
- Então... até...
- Mas é isso?! As coisas terminam aqui? Assim?
- Não... vou te acompanhar até a Cidade Baixa...
- Que alívio! Pensei que você me deixaria partir, assim!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Un debut prometteur

Há aqueles que já nascem velhos
e outros que jamais envelhecem. 

Há os que envelhecem com o tempo
e aqueles que simplesmente o ignoram.  


 Mas existem momentos, insólitos, 
em que, por alguma razão transcendente,
somos todos estes que aparecem.


Veerle Baetens, mes hommes, e as diversas versões do tempo.